Por MICHEL JUSTAMAND
Doutorando em Ciências Sociais na PUC-SP. Professor de Ciências Sociais e Antropologia da Universidade Bandeirantes de São Paulo
Uma possível história do Brasil antes de 1500 é questionada por adultos e crianças há muito tempo. Na fase inicial de estudos formal, na escola, nos é dado como certo que a história nacional inicia-se em 1500. Mas, algum tempo depois, nos perguntamos: se já existiam habitantes nesta terra, estes não tinham e fizeram história?
Para este artigo, interessam os vestígios deixados nas rochas pelos primeiros habitantes do Brasil, que são as pinturas rupestres. Elas nos transmitem suas histórias e estão expostas em várias formas artísticas (como as tradições e/ou subtradições, ou ainda estilos das pinturas rupestres), culturais, sociais, etc.
As pinturas rupestres estão plasmadas nas paredes das rochas espalhadas por todos os estados do país, especialmente em algumas cidades. Aparecem nas cavernas e nas rochas que serviram, provavelmente, de abrigo para os primeiros habitantes do Brasil, muito antes de 1500.
Estas pinturas, então, poderiam transmitir informações sociais e culturais de grande importância para a sobrevivência do grupo que existisse naquele espaço e também para o futuro, fornecendo-nos dados sobre a forma de vida das comunidades locais.
Parece-nos que os livros didáticos de História do Brasil seriam o melhor local para divulgar tal informação, pois são de grande importância para o desenvolvimento da população. Por isso, procuramos pesquisar estes livros.
Os livros didáticos de História (do Brasil, Geral e/ou Integrada) não relatam este assunto como se fizesse parte da história do país. Tratam o período como pré-história, ou uma “história menor” talvez. Desta forma, não esclarecem os leitores da possibilidade de que o Brasil tenha tido uma História independente daquela da Europa, por exemplo, e assim escondem algumas informações, existentes nas pinturas, de nosso interesse. Hoje as pinturas rupestres nos mostram um potencial informativo sobre a história dos primeiros habitantes do Brasil e das Américas não contada nos livros didáticos. Mesmo aqueles livros que contavam a História do Brasil e até aqueles que se diziam livros didáticos de História Geral não faziam menção alguma à passagem do homem pelo Brasil/Américas, antes de 1500.
Algumas imagens de pinturas rupestres que aparecem nos livros didáticos, de certa forma, são padronizadas, pois as mesmas aparecerem em vários livros. Os autores destes livros utilizam-
se sempre das mesmas tradições de pinturas rupestres e sendo que, no país, o que não faltam são tradições diferentes e locais para serem explorados.
Por esse motivo, esses autores empobrecem a visão do educando, que não percebe a existência das pinturas rupestres em todo o país, podendo até haver uma produção próxima de sua escola, ou residência, cidade ou estado, indicando uma história antiga para sua região também e não somente para a antiguidade clássica (por exemplo: Mesopotâmia, Egito, Grécia, Roma, etc.).
A arqueologia que é a ciência que estuda mais detalhadamente as pinturas rupestres e que tem se pronunciado sobre elas com algumas afirmações que se tornam tendências metodológicas. Uma destas afirmações, apontada e defendida por André Prous[1], entre outros, é a de que não se deve interpretá-las. Uma outra tendência mais aberta, no sentido de que permite algumas interpretações é a sugerida por Edithe Pereira[2].
Existem ainda aqueles que compactuam com uma tendência que faz descrições que são, praticamente, interpretações das pinturas rupestres e que indicam a utilidade delas como referencial no uso social dos primeiros habitantes do país. Neste caso, estão cientistas como Niéde Guidon e Pedro Schmitz, entre outros.
As pinturas rupestres apresentam a possibilidade de múltiplas interpretações. Uma delas é a de que se pode “ler” os códigos ali plasmados e adquirir informações sobre a vida e as práticas sociais dos primeiros habitantes do país.
Sobre as pinturas, Lucci, autor de livros didáticos e também historiador, diz: Ainda habitando nas cavernas, o homem primitivo começou a desenvolver a atividade artística – representava nas paredes, a natureza que o cercava e cenas da vida cotidiana, por meio de desenhos de animais e árvores.[3]
O autor sugere que os homens deram início às atividades artísticas também por meio das pinturas rupestres. E esse caminho artístico aponta um conhecimento do mundo que os cercava e também quais poderiam ser suas necessidades no contexto social, ecológico e histórico em que viviam. Por “meio de desenhos de animais e árvores”, temos uma noção da relação entre homens e seu habitat, vantagens e desvantagens, da permanência ou não, entre outras questões. E voltam as perguntas: se as pinturas têm o poder de comunicar algo, por que não utilizar as existentes no Brasil? Por que as pinturas que aparecem nos livros didáticos deste autor não são de nosso país? Por que uma produção cultural/social como as pinturas rupestres não são usadas nos livros didáticos?
Em um dos livros didáticos de História do Brasil dos mais usados nos anos 60, o de Antônio J. Borges Hermida, as únicas imagens que constam não são as de pinturas rupestres (ou outras formas culturais locais), mas desenhos estilizados dos primeiros habitantes do Brasil.
Esperávamos encontrar, então, nos livros didáticos da década de 70, algum avanço nesta posição, pois nesta década as ciências já estavam estudando com bastante intensidade os sítios arqueológicos do Brasil, como São Raimundo Nonato (PI) e o Vale do Jequitinhonha (MG), por exemplo. Entretanto, além de não apresentarem imagens do Brasil sobre o período anterior a 1500, a história ensinada começa com a formação do Estado Nacional de Portugal.
Com os avanços científicos nas pesquisas arqueológicas na década de 80, no Brasil, e a descoberta de pinturas rupestres por todos os estados do país, esse tema passasse a se refletir nos livros didáticos do período. Uma discussão embrionária da ciência arqueológica surge finalmente nos livros didáticos, mas com fotos de pinturas rupestres da Europa, mesmo para tratar das questões do Brasil.
Nas produções dos anos 90, o quadro mudou bastante com relação às décadas passadas. Existem livros com uma grande qualidade e preocupação com a apresentação deste passado que interessa a todos que neste país moram. Nesta década surgiram os mapas com a localização das populações mais significativas das Américas e do Brasil. É o caso de Gilberto Cotrim em História e consciência do Brasil, (1997/Saraiva)[4] ; com indicações dos lugares onde se encontravam as pinturas no Brasil e Vicentino/Dorigo (1998/Scipione) em História do Brasil.
Nos livros didáticos de História Geral para o ensino médio, surge, nesta década a divisão entre pré-história no mundo e no Brasil/Américas, com os livros de José J. de A. Arruda e Nelson Piletti (1998/Ática), Antônio Pedro (1998/FTD), Florival Cáceres (1998/Moderna), entre outros.É também nesta década que aparecem as primeiras imagens (a maioria colorida) de pinturas rupestres nestes manuais. Em alguns casos, são apenas ilustrativas e, em outros, existe motivo para estarem lá, como em História do Brasil, de Dorigo/Vicentino, pois há discussão sobre as fotos.
As imagens coloridas também são de grande importância, porque hoje os adolescentes estão acostumados com elas. Em alguns livros didáticos, desta década, as fotos em preto e branco fazem com que as pinturas rupestres percam seu brilho. Este é o caso dos autores Cotrim, Arruda, Piletti, Pedro, Cáceres, e outros (nos livros citados). E, no Brasil, as pinturas possuem uma das maiores variedades de cores do mundo.
A pintura rupestre tem recebido algumas interpretações dos professores de História e historiadores autores de livros didáticos como Lucci e também Vicentino/Dorigo. Eles criam um vínculo interpretativo entre as pinturas rupestres e o presente em suas considerações, para auxiliar a compreensão por parte dos alunos. Apontam uso e significado, dados que estariam nas entrelinhas das pinturas e que são úteis pedagogicamente.
Em livros didáticos como o de Piletti (1998/Ática) ou o de Vicentino/Dorigo, ocorrem algumas informações nas legendas das pinturas, abaixo das fotos, que ajudam os leitores a compreenderem o exposto na imagem: As mulheres em algumas das pinturas são identificadas pelo ventre proeminente que caracteriza a gravidez das mesmas.[5]
Ou ainda: Nas figuras pintadas em paredes rochosas do Parque Nacional da Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, PI, destacam-se as do sítio da Pedra Furada, onde predominam cenas de caça, trabalho e vida familiar.[6]
Mas os livros didáticos dos anos 90 trazem também capítulos como “Antes do descobrimento”[7]. E títulos como “Do descobrimento à independência”[8]. Nesses dois casos, está presente o discurso dominante e alienante, que não propõe uma visão de que a história do Brasil pudesse ter começado antes da invasão portuguesa.
Acreditamos que se as pinturas rupestres que aparecem nos livros didáticos se forem bem trabalhadas em breve, as gerações vindouras farão novos questionamentos e não mais aqueles com os quais nos defrontamos quando estávamos nos primeiros anos de escolarização.
Imaginamos que não tenham sido exclusivamente os avanços da arqueologia, mas também as preocupações dos autores e editoras com a qualidade de seus materiais, além das cobranças e questionamentos dos alunos, que contribuíram para as mudanças ocorridas nos livros didáticos atuais.
Bibliografia
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MENDES, Josué Camargo. Conheça a Pré-história Brasileira. São Paulo. USP, Editora Polígono, 1970. Da pág. 113 a 135.
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Fontes:
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BARBEIRO, Heródoto & CANTELE, Bruna Renata. Ensaio Geral 500 anos de Brasil. São Paulo, ed. Nacional, 1999.
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COTRIM, Gilberto. História e consciência do Brasil. São Paulo, ed. Saraiva, 1997.
FERREIRA, Olavo Leonel. História do Brasil. São Paulo, ed. Ática, 1995.
FIGUEIRA, Divalte Garcia. História. São Paulo, ed. Ática, 2000.
KOSHIBA, Luiz & PEREIRA, Denise M. F. Américas uma introdução histórica. São Paulo, ed. Atual, 1996.
MEIRA, Antonio Carlos. Brasil recuperando a nossa história. São Paulo, ed. FTD, 1998.
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PEDRO, Antonio. História da civilização ocidental (integrada Brasil e Mundo). São Paulo, ed. FTD, 1997.
PILETTI, Nelson. História do Brasil. São Paulo, ed. Ática, 1997.
SCHMIDT, Mario. Nova História Crítica da América. São Paulo, ed. Nova Geração, 1998.
SILVA, Francisco de Assis. História do Brasil. São Paulo, ed. Moderna, 1992.
VICENTINO, Cláudio. História Geral. São Paulo, ed. Scipione, 2000.
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* Doutorando em Ciências Sociais na PUC-SP. Professor de Ciências Sociais e Antropologia da Universidade Bandeirantes de São Paulo
[1] PROUS, André. Arqueologia Brasileira.p 501: “A. Emperaire costuma dizer que arte rupestre parecia o campo mais fácil de ser estudado na arqueologia: o ‘aficionado’ não tem dificuldade em discursar sobre vestígios, tão visíveis sem precisar de escavação, e tão mudos que aceitam
qualquer interpretação; mas acrescentava que, na realidade, trata-se do capítulo mais complexo, e no qual se cometem os maiores erros”.
[2] PEREIRA, Edithe. Arte da Terra: resgate da cultura material e iconográfica do Pará, p.20: “O significado contido nas pinturas e gravuras rupestres, elaboradas pelos povos pré-históricos, ficou perdido no tempo. Aquilo que antes foi uma mensagem entendida e compartilhada por muitos, hoje nos é impossível desvendar. No entanto, a forma concebida e plasmada na rocha conservou-se ao longo dos séculos, chegando até os nossos dias como um testemunho da expressão cultural de um povo. Conservar e divulgar esse patrimônio arqueológico é dever de cada um de nós”.
[3] LUCCI, Elian Allabi. História Geral, p. 15.
[4] A partir desta nota as datas e as editoras dos respectivos autores apareceram entre parênteses, na primeira vez que aparecerem.
[5] VICENTINO, Cláudio e DORIGO, Gianpaolo. História do Brasil, p.17.
[6] IDEM, ibidem.
[7] ARRUDA, José Jobson. História total, Brasil: período colonial, p. 5.
[8] BARBOSA, Milton B. F. & STOCKLER, Maria L. História do Brasil: do descobrimento à independência.
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