Joelma Carvalho Pereira
No contexto de colonização portuguesa, a igreja católica foi uma instituição fundamental para promover o controle dos povos conquistados. Juntamente com o Estado, a Igreja conseguiu, não sem resistências, desempenhar suas atividades de conversão e catequização aos povos dominados, tais ações contribuíram gradativamente para o seu fortalecimento.
Boris Fausto (2006) expõe que a educação religiosa dos pagãos foi uma estratégia eficaz para assegurar o poder e o prestígio do Estado.
A igreja também se ocupava do privado: “Ela estava presente na vida e na morte das pessoas, nos episódios decisivos do nascimento, casamento e morte.” (FAUSTO, 2006, p. 29). Em resumo, a igreja católica, em seu processo de “evangelização” nas colônias portuguesas, teve como obrigação tratar dos assuntos referentes ao público e ao privado, dividindo o poder com o Estado.
No processo de implantação forçada durante o período da colonização, o catolicismo introduziu no Brasil novos significados para a construção da identidade nacional.
Foi, no passado colonial brasileiro, uma religião obrigatória: os que aqui nasciam o aceitavam por pressuposto de cidadania, exceto os indígenas, aos quais se exterminava ou se convertia. Os que aqui não nasciam tinham que adotá-lo, mesmo que não o compreendessem: os negros escravizados eram batizados no porto de procedência ou de desembarque. Já os judeus, sob a pressão de serem perseguidos pelos inquisidores, de perderem seus bens ou mesmo suas vidas, preferiram, em geral, tornar-se „cristãos-novos‟. (NEGRÃO, 2008, p. 263)
Apesar de ter sido uma religião obrigatória isso não significou que ela foi a única existente no Brasil colonial. Alguns exemplos podem ser citados: as religiões africanas; o judaísmo descaracterizado pela conversão forçada ao catolicismo, mencionado anteriormente não esquecendo a religiosidade dos indígenas, que foram obrigados ao convertimento. Foram acrescentados, historicamente, elementos culturais de outras nações que juntamente com o cristianismo, produziram aqui novas identidades nacionais. Essas identidades nacionais, segundo Stuart Hall (2003) são construídas através do diálogo entre representações simbólicas e instituições culturais, algo que surge do imaginário nacional para a significação da identidade do indivíduo, como o território e a língua. Tendo em vista o caráter influenciador da Igreja Católica, como ponto de identificação, pode-se afirmar que a mesma “[...] é também uma estrutura de poder cultural.” (HALL, 2003, p. 59)
Como poder cultural, a igreja católica tem sua representação consolidada pela institucionalização, sendo esta uma forma de materializar a sua existência. Neste caso, o templo, regere sacra, existe para efetivar o poder do seu “sistema simbólico”, a religião (Bourdieu, 2001). E como poder simbólico, a religião necessita delimitar um território imaginário dentro de um território político. Exemplo disso são os preceitos religiosos, formas de disciplinar os fiéis que equivale à legislação de um Estado.
Hall (2003) enfatiza que a identidade nacional é resultado do processo forçado, na tentativa de unificar as múltiplas culturas, e criar um símbolo unificador. Por isso, ao longo de séculos, a instituição católica continua exercendo papel significativo para a sociedade brasileira, apesar da secularização. Um exemplo histórico de implantação cultural forçada refere-se às nações ocidentais modernas, que “foram também os centros de impérios ou de esferas neoimperiais de influência, exercendo uma hegemonia cultural sobre as culturas dos colonizados.” (Hall, op. cit, p. 61). Baseado nesse prisma, de forjamento e unificação da nação através da religião, o Brasil ainda é considerado, na atualidade, um país católico. Esse credo é visível na sociedade brasileira, como consta no censo demográfico de 2000, mais de 73% da população brasileira se declarou católica (IBGE, 2000).
Segundo Adverse (2008), secularização compreende o processo de perda ou transferência da moral religiosa, ou seja, o que é oposto a religião é considerado secular.
Pesquisa recente da Fundação Getúlio Vargas e Centro de Políticas Sociais (2011)4 afirma que 68, 43% da população brasileira se declara católica. Percebe-se uma queda acelerada do número de católicos no Brasil entre os anos 2000 e 2009. De acordo com os dados da pesquisa, houve um aumento do número de evangélicos e dos que se declararam “sem religião”, além das religiões alternativas que em 2000 era composta por 2, 6% da população e em 2009 atingiu a média de 4, 62%. Observa-se que as rupturas, como resultado do processo histórico, em relação as religiões, vêm representando significativa transformação no espaço do cenário religioso brasileiro.
Por outro lado, é importante relativizar esses dados, de que 68, 43% da população brasileira se declara católica, pois conforme Mott (2007) muitas pessoas que pertencem a religiões de matrizes africanas e espíritas se declaram católicas em razão da permanência ainda na contemporaneidade de preconceito em relação a essas religiões.
Desde o início da colonização o símbolo religioso católico foi propositadamente representado para unificar a identidade cultural. Assim como a língua foi um dos aspectos culturais para a construção do nacionalismo germânico, a igreja católica, bem mais que a própria religião católica, foi, e ainda é, um ponto unificador na construção da identidade nacional brasileira.
Enquanto a Igreja se constitui em uma instituição organizada em dogmas que tem o templo como espaço comunitário do sagrado, a religião é uma ideologia formada por vários fatores, que inclui a crença no invisível e que necessita da prática religiosa para representar o sagrado (BOURDIEU, 2001)
REFERÊNCIAS
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico/ Pierre Bourdieu; tradução Fernando Tomaz. 4ª Ed. Rio de Janeiro; Bertrand Brasil, 2001.
BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. http:// www.ibge.gov.br acesso 10/07/2011 às 11:57
FAUSTO, Bóris. História Concisa do Brasil. 11 ed., São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2003.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.
MOTT, Luiz. Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu. In: SOUZA, Laura de Mello e; NOVAIS, Fernando A. . História da vida privada no Brasil, 1: cotidiano e vida privada na América Portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
NEGRÃO, Lísias Nogueira. Pluralismo e multiplicidades religiosas no Brasil contemporâneo. Soc. Estado., 2008, vol. 23, no. 2, p. 261-279. ISSN 0102-6992.

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